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Youtubers e jogadoras semi-profissionais relatam casos de machismo. Na Brasil Game Show, a reportagem do iG ouviu relatos de assédio e ameaças

Atire a primeira pedra quem nunca ouviu que videogame é coisa de menino. Apesar disso, uma pesquisa realizada pelo Youtube Gaming, a plataforma para gamers do Youtube, revelou que 24% dos usuários da plataforma são do sexo feminino. Praticamente, um em cada quatro usuários. Porém, ainda há muito machismo e discriminação nesse universo predominantemente masculino.

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MACHISMO NOS GAMES com Satty feat. Queen B e Lu Himura
Reprodução/Youtube
MACHISMO NOS GAMES com Satty feat. Queen B e Lu Himura

É o que conta Beatriz, jogadora semi-profissional de FPS do GG Team e vítima de machismo frequentemente. “Muitas vezes, não nos levam a sério pelo fato de sermos garotas, mas isso não significa que a gente não consiga. Estamos lutando para conseguir nosso espaço no mundo dos games, e não falta dedicação.“ Ela conta que, se por um lado alguns garotos as colocam em um pedestal, tantos outros dizem que elas devem voltar para a cozinha. Ana Júlia, também do GG Team, afirma que recebe muitos xingamentos e piadinhas machistas quando está em campeonatos de FPS com o sexo oposto. “Acho que isso acontece porque ainda não estamos no mesmo nível que eles”, afirma.

Aline, da equipe feminina semi-profissional de “ Call of Duty ” Clã Fads, acredita que, apesar de o machismo ainda estar muito presente nesse cenário, melhorou bastante nos últimos anos, com o aumento do número de jogadoras.

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Assédio

Camila, também do Clã Fads, afirma que as meninas sofrem não apenas com o machismo no universo gamer, mas também, com o assédio. “Os meninos nos veem jogando, e falam coisas como ‘manda nudes’, e aí, quando ganhamos deles, ouvimos que tem um garoto jogando no nosso lugar e que devemos voltar para a cozinha, ir cuidar da casa. Eu acho que eles realmente não se sentem confortáveis com as garotas entrando nesse universo, que antes era só deles.”

Segundo pesquisa realizada pelo Ibope, há mais de 30 milhões de mulheres com algum tipo de console em casa. É um setor mais rentável que Hollywood. No entanto, os games não são pensados para o público feminino. Juliana Toledo, que foi à BGS 2016 vestida como a personagem Hit Girl, de Kick-Ass, lembra que o machismo começa quando as personagens femininas nos games usam roupas curtas e provocativas. “Gosto da Hit Girl porque ela usa uma roupa que você olha e diz ‘ok, ela está indo lutar’, e não algo que você olha e diz ‘ela vai fazer strip-tease em uma boate. Muitos acham que essas roupas são uma brecha para pedir o telefone, ou para dar uma cantada.”

Bibi, do canal homônimo do Youtube
Reprodução/Youtube
Bibi, do canal homônimo do Youtube

A youtuber Isadora Marques, do canal "Aquela Pessoa Ali", também faz críticas aos comentários ofensivos que recebe. “Estamos aqui no século XXI e ainda tem gente me falando para voltar para a cozinha. Eu estou jogando bem, estou fazendo o garoto jogar e ele me diz essas coisas”, revela Isadora. “Se uma mulher comete um erro em um jogo, o erro dela é muito mais grave que o de um homem. Apenas porque ela é mulher”, afirma a também youtuber Nilse Morena.

Não faltam questionamentos nas redes sociais sobre o vestuário e a participação das personagens femininas nos games. Muitos chegam a compará-las às princesas Disney, dado seu pouco envolvimento com as narrativas. Isso é o resultado de uma indústria que foi pensada exclusivamente para o público masculino. Nos anos 1980, no surgimento dos videogames, o perfil gamer era o adolescente branco e heterossexual. Em mais de 30 anos de história, a indústria mudou pouco ou quase nada, sem se dar conta da mudança de público.

Ser youtuber de um canal com mais de meio milhão de inscritos também não te livra do machismo se você for uma gamer girl. É o que explica Satty, do canal "PenseGeek", com mais de 560 mil seguidores, que ainda recebe comentários depreciativos por ser menina, apesar de ter conquistado um público feminino bem grande – ela estima que quase metade de seus seguidores sejam do sexo feminino. “É muito legal perceber que isso está mudando. Temos tido uma melhora muito grande na comunidade gamer feminina. Estamos caminhando para o lugar certo, mas ainda temos bastante chão pela frente”, lamenta a youtuber.

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Bibi, do canal homônimo do Youtube, conta que mais de uma vez já recebeu mensagens de garotos que a mandavam lavar louça. Apesar disso, tem notado uma melhora no cenário desde que começou a participar da comunidade gamer de “Minecraft”.

#GamersGate

A polêmica é antiga, datada de 2014, e começou com ameaças de morte a uma produtora de jogos norte-americana. Um artigo da época afirmava, em tradução livre, que “games não são para todo mundo. Ser gamer é algo que requer muito tempo e dedicação”. E ainda de acordo com o “movimento”, atender às demandas do público feminino levaria a indústria de games a um caminho nocivo e sem volta e que, portanto, eles só querem salvar o universo gamer para gamers de verdade.

Lara Croft, personagem de
Flickr/thostinsl
Lara Croft, personagem de "Tomb Raider" é mais uma das personagens que sofrem hipersexualização

 “Acredito que isso ainda acontece porque a masculinidade ainda é muito frágil para muitos caras, e eles acabam tendo medo de perder o espaço ali. Mas não vão perder. Vamos partilhar espaços”, afirma Isadora. Para ela, a saída para isso é o respeito. “Primeiro, devemos respeitar a nós mesmos, e depois, respeitar ao próximo.” Satty, porém, acredita que a chave para que as garotas se consolidem no universo gamer e acabem com o machismo é a representatividade.  “Se as empresas investirem mais, se tivermos mais representativadade, não só youtubers, mas jogadoras profissionais. Tem bastante, mas não se fala muito delas.”